Lusa - 24 de Setembro de
2007
Díli - Os militares acusados da morte de
oito polícias timorenses a 25 de Maio de
2006 "não tinham intenção
de matar", afirmou hoje em tribunal um dos
arguidos das Falintil-Forças de Defesa de
Timor-Leste (F-FDTL).
"Não tínhamos intenção
de matar", afirmou o primeiro-sargento Paulino
da Costa na segunda audiência do processo
relativo ao acontecimento mais violento da crise
política e militar de Abril e Maio de 2006.
Paulino da Costa era o militar mais graduado no
grupo que, na manhã de 25 de Maio de 2006,
disparou sobre uma coluna da Polícia Nacional
(PNTL) sob escolta das Nações Unidas,
diante do ministério da Justiça, em
Caicoli, no centro de Díli.
"Tenho todo o respeito pela bandeira das Nações
Unidas mas naquele caso concreto sempre tive desconfiança
de qualquer coisa, de um ataque da PNTL", repetiu
hoje Paulino da Costa.
"Aquele sítio era uma zona de operações
militares e os polícias deviam ter-se deslocado
por outros meios ou por outro lado", acrescentou
o arguido.
O primeiro-sargento afirmou também em tribunal
que, "embora a PNTL tivesse feito várias
operações contra as F-FDTL nos dias
anteriores, não havia intenção
de actuar contra eles", nem sequer como vingança
pela morte de um soldado das F-FDTL nessa mesma
manhã.
"Não havia uma ordem mas eu fui lá
para dar apoio e não recebi nenhuma ordem
para abandonar o local", explicou o militar.
"Se abandonasse o local, aconteceria um ataque"
da PNTL, disse, justificando: " A situação
era de pânico".
O tiroteio sobre a coluna escoltada e desarmada
da PNTL aconteceu após um primeiro incidente
na mesma área de Caicoli, com rajadas e lançamento
de granadas entre o quartel-general da Polícia
e o quartel-general das F-FDTL, situados em terrenos
contíguos.
No edifício das F-FDTL encontravam-se nessa
manhã o comandante-geral das Forças
Armadas, brigadeiro-general Taur Matan Ruak, o coronel
Lere Anan Timur e o então ministro da Defesa,
Roque Rodrigues, confirmou hoje o primeiro-sargento
Paulino da Costa, que se encontrava no piso superior
do imóvel quando começaram os tiros.
"Sei da presença do ministro da Defesa
mas como sargento não sabia o que ele estava
a fazer", explicou o militar diante do colectivo
de juízes, presidido pelo magistrado português
Ivo Rosa.
Insistindo obedecer sempre a "ordens superiores"
e a "obrigações táctico-estratégicas
de autodefesa e defesa do quartel", Paulino
da Costa acabou por declarar em tribunal que nessa
manhã as ordens partiram "dos comandantes"
e, em concreto, do coronel Lere Anan Timur.
Paulino da Costa declarou não ter disparado
um único tiro sobre a coluna de PNTL e os
elementos das Nações Unidas, ao contrário
dos colegas.
Ao mesmo tempo, insistiu que o tiroteio dos F-FDTL
foi uma reacção a "um tiro no
meio da coluna" dos polícias e a provocações
com gestos de elementos no fim da coluna.
Além de Paulino da Costa, outros onze arguidos
estão sentados no banco dos réus no
processo do ataque à coluna de polícias.
Os PNTL foram atingidos quando marchavam cantando
o hino nacional timorense, sob escolta internacional,
numa coluna de cerca de 120 pessoas.
Um memorial aos polícias mortos foi inaugurado
no aniversário do massacre pelo Presidente
da República, José Ramos Horta.
PRM-Lusa/Fim